Falência hepática aguda - O que precisamos saber?


O fígado é um órgão que possui funções essenciais para o nosso corpo. No entanto, algumas doenças podem afetar o seu funcionamento, muitas vezes de forma silenciosa, podendo causar impactos bastante graves na saúde da pessoa.


Casos recentes de falência hepática aguda ganharam bastante repercussão na mídia e trouxeram novamente o debate acerca dos cuidados que devemos ter para manter a saúde deste órgão tão importante.


O fígado é um órgão vital!


O fígado possui um complexo sistema de vasos sanguíneos (sistema porta-hepático) e é constituído por células especializadas denominadas hepatócitos, que desempenham diversas funções metabólicas importantes para o nosso organismo.


Uma dessas funções está relacionada ao metabolismo de carboidratos, especialmente no armazenamento de glicose. Durante a digestão, estes nutrientes são quebrados em moléculas de glicose, que chegam ao fígado e são captadas pelos hepatócitos. No interior dos hepatócitos, a glicose passa por uma série de reações bioquímicas que irão transformá-la em glicogênio, uma forma que pode ser armazenada no fígado e utilizada como reserva energética.


O fígado desempenha também um importante papel no metabolismo de lipídios (gordura), que também podem sofrer modificações e serem armazenados nos hepatócitos na forma de triacilgliceróis ou incorporados em lipoproteínas (VLDL). Ao serem liberadas pelo fígado, as partículas de VLDL sofrem uma série de transformações na corrente sanguínea, liberando triglicérides para serem estocados no tecido adiposo ou utilizados como fonte de energia.


O fígado também participa ainda da síntese de proteínas, como o fibrinogênio e a pró-trombina, que são essenciais para o processo de coagulação sanguínea, e a bile, que participa na absorção de gorduras.


O fígado elimina substâncias tóxicas


Mas, essas não são as únicas funções deste órgão! Ele também desempenha um importante papel na desintoxicação e na neutralização de diversas substâncias que podem ser prejudiciais ao nosso corpo. Especialmente de medicamentos! Após ingerirmos um remédio, essa substância é processada em nosso organismo para que ela tenha o efeito terapêutico desejado. No entanto, podem ser formandos subprodutos de medicamento que tem potencial tóxico para o nosso organismo. É nesse ponto que entra o fígado. Esse papel tão importante chamou a atenção da nossa sociedade e da mídia recentemente ao evidenciar como o consumo de algumas substâncias podem causar danos ao fígado e comprometer o seu funcionamento.


Um exemplo de destaque foi o caso de uma enfermeira que foi internada com fortes dores abdominais e diagnosticada com problemas no fígado em um Hospital de São Paulo. O seu caso progrediu rapidamente e a mesma precisou realizar um transplante hepático com urgência, mas, infelizmente, não resistiu.


Nesse caso, a paciente não apresentava problemas prévios de saúde e não fazia uso de medicamentos. No entanto, ao investigar mais a fundo, os médicos descobriram que a enfermeira fez uso de cápsulas de chás emagrecedores (50 ervas), cuja composição é prejudicial ao fígado. Substâncias como este chá, inclusive, não estão regularizadas como medicamentos e são proibidas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) desde 2020.

Esse exemplo traz à tona a importância do consumo consciente e sob orientação de medicamentos e outras substâncias com potencial hepatotóxico.

O que é a falência hepática aguda (FHA)?


A FHA é uma doença grave e de progressão rápida no fígado e pode atingir outros órgãos, como cérebro, rins, pulmões, medula, sistemas cardíaco e imunológico. Ou seja, além de comprometer a função hepática, a FHA pode progredir e levar à falência múltipla dos órgãos. Como resultado, a capacidade metabólica do fígado fica comprometida, o que requer atenção e cuidado redobrado na hora de prescrever medicamentos.


Uma das principais causas da FHA é o consumo inconsciente de medicamentos como o acetaminofeno, também conhecido como paracetamol. Esse fármaco é muito utilizado para o alívio de dor e febre, mas, quando administrado em excesso, pode causar sinais de toxicidade como náuseas, vômitos e dor abdominal. A intoxicação por acetoaminofeno causa um quadro hiperagudo de falência hepática que se inicia de 8 a 12 horas após a sua ingestão e promovem um aumento nos níveis de enzimas que participam da metabolização de proteínas.


Outra causa muito comum da FHA é a infecção pelo vírus da hepatite, cuja gravidade depende da variante com a qual o paciente foi infectado. Embora estas sejam as causas mais comuns, doenças metabólicas, doenças autoimunes, exposição a substâncias tóxicas e várias outros fatores também podem levar ao comprometimento do fígado.


Quais os principais sintomas da doença?


O quadro clínico da FHA se desenvolve de forma rápida e progressiva e os seus primeiros sintomas não são específicos, o que dificulta o diagnóstico da doença. Esses sinais incluem náusea, fadiga e mal-estar. Mas, o sinal que mais chama a atenção é a encefalopatia (alteração das funções cerebrais), que pode surgir antes ou depois da icterícia (sinal clínico caracterizado pela cor amarelada da pele, mucosas e olhos). A evolução da encefalopatia pode ocorrer em poucas horas e evoluir rapidamente para um estágio de coma hepático.


Muitos pacientes com a doença apresentam também hipoglicemia devido ao comprometimento do metabolismo hepático da glicose e aumento dos níveis de insulina. Esses pacientes também apresentam o processo de coagulação comprometido e, por isso, a ocorrência de sangramentos e hemorragia (principalmente no trato digestivo) pode ocorrer.


O quadro clínico da FHA se desenvolve rapidamente. Por isso, procedimentos invasivos, como a intubação e o uso de cateteres venosos, facilitam a instalação de infecções. Essas são apenas algumas das complicações que contribuem para a falência de múltiplos órgãos.


Outra condição que promove complicações no quadro da FHA é o edema cerebral, uma condição que ocorre quando há o aumento da pressão intracraniana acompanhado de hipertensão (elevação da pressão arterial) e hipertonia muscular (tensão muscular exagerada).


Estas duas condições (falência múltipla de órgãos e edema cerebral) são as principais causas de óbito em pacientes com FHA.


Como é realizado o diagnóstico e o tratamento da FHA?


Os testes de função hepática (hepatograma) são indicados e realizados em pacientes com suspeita de doenças que acometem o fígado e envolve vários exames laboratoriais, e de acompanhamento.


Entre os exames laboratoriais, costuma-se avaliar os níveis de algumas enzimas, como a fosfatase alcalina, alanina aminotransferase (ALT), aspartato aminotransferase (AST) e gamaglutamil transpeptidase (GGT). Essas enzimas são produzidas pelo fígado e auxiliam na detecção de lesões hepáticas, sendo que o ALT é um bom parâmetro para detectar hepatite e o GGT é sensível às alterações nas funções do fígado.


Outros exames laboratoriais solicitados incluem a quantidade de proteínas totais e albumina, o tempo de pró-trombina (coagulação do sangue) e bilirrubina (avalia a degradação das células vermelhas do sangue). Além disso, pode ser solicitada a dosagem de acetaminofeno e outros medicamentos em caso de suspeita de hepatite medicamentosa.


A biópsia do tecido hepático, exames de hepatites virais e exames de imagem como ultrassom, tomografia e ressonância também podem ser solicitados para monitorar a progressão da doença.


Como a FHA progride rapidamente, é necessário monitorar os sinais fisiológicos do paciente e corrigir os fatores que pioram a lesão hepática e a encefalopatia o quanto antes. Por isso, o seu tratamento envolve diversos profissionais. E, antes de se prescrever qualquer tratamento, é necessário compreender a origem da FHA. Afinal, a indicação de um tratamento inadequado pode comprometer ainda mais a função hepática.


O transplante hepático é o tratamento definitivo e mais eficaz para a FHA, mas, é muito difícil definir o melhor momento para a sua realização. Alguns fatores como a presença de infecções ativas e não controladas, edema cerebral irreversível, a falência de múltiplos órgãos são algumas das contraindicações para a ocorrência do transplante. Por isso, a sua prevenção é o melhor tratamento para a FHA!


Lembrete: Os exames só devem ser realizado após avaliação e indicação médica.


Nós, do Laboratório Biocenter, assumimos o compromisso de trazer informações relevantes e atuais para você. Estamos prontos para lhe atender e garantir os melhores resultados em exames laboratoriais.


Referência:

Aires, M. Fisiologia. 4ª edição (2012). Ed. Guanabara Koogan


Dong V, Nanchal R, Karvellas C. J (2020). Pathophysiology of acute liver failure. Nutrition in Clinical Practice.


Falência hepática aguda. Sociedade Brasileira de Hepatologia. Disponível em: *FASC_HEPATO_27_FINAL.pdf (sbhepatologia.org.br)


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