Atrofia muscular espinhal - Você conhece esta doença?



Você já ouviu falar sobre a atrofia muscular espinhal?


Essa é uma doença que ganhou destaque no último mês em diversas mídias, incluindo a televisiva, especialmente pela sua gravidade e alto custo de tratamento.


A atrofia muscular espinhal (ou AME) é uma doença rara, progressiva e muitas vezes letal, que afeta em torno de um a cada dez mil recém-nascidos.


Mas afinal, o que é a AME?


A AME é uma doença rara herdada geneticamente que causa destruição progressiva das células nervosas do cérebro e da medula espinhal que controlam os movimentos musculares do corpo. Ou seja, gradativamente a pessoa afetada perde a capacidade de se locomover, falar e até mesmo respirar.


A doença é causada por mutações genéticas em um gene específico chamado gene de sobrevivência do neurônio motor (SMN1). Esse gene contém as instruções para a produção da proteína SMN, a qual desempenha um papel fundamental para as células nervosas. Sem essa proteína, os neurônios responsáveis pelo controle dos nossos movimentos não se desenvolvem corretamente e acabam se degenerando. Assim, não há o estímulo necessário para a contração dos músculos, causando perda de massa muscular e atrofia.


A proteína SMN também pode ser produzida a partir de um segundo gene muito parecido com o SMN1, conhecido como SMN2. No entanto, somente pequena parte da proteína SMN produzida pelo gene SMN2 é funcional, não sendo suficiente para sustentar o funcionamento normal dos neurônios motores.

A grande questão é que portadores da AME podem ter mais cópias do gene SMN2. A depender da quantidade de cópias, esse gene pode compensar em parte a produção da proteína SMN. E isso reflete em diferentes níveis de gravidade que a doença pode apresentar. Por exemplo, indivíduos com duas cópias do gene SMN2 têm maior probabilidade de desenvolver AME de início infantil (também conhecido como Tipo 1 e mais grave), enquanto aqueles que possuem três ou quatro cópias têm maior probabilidade de desenvolver AME de início tardio (tipos 2 e 3).

Não existe cura para a doença, mas cada vez mais a ciência avança no desenvolvimento de novos tratamentos para melhorar a expectativa e qualidade de vida dos pacientes.


Como funciona o tratamento da AME?


Como dito anteriormente, o tratamento da AME envolve o uso de medicamentos importados de alto custo (na casa dos milhões de reais!). Esse é o caso do Zolgensma. Este medicamento foi desenvolvido nos Estados Unidos e pode custar mais de 10 milhões de reais a dose.

Apesar do valor exorbitante, o medicamente possui inúmeras vantagens perante outros por possuir tecnologia de ponta em sua formulação. O fármaco funciona utilizando vetores virais (vírus que não causam doenças) que funcionam como meio de transporte para o gene SMN1. Em outras palavras, cientistas conseguiriam inserir no genoma do vírus uma parte do código genético referente ao gene SMN1 humano.

Ao aplicar o medicamento na criança que sofre com AME, o vírus irá infectar as células nervosas da medula espinhal, entregando o gene SMN1. Assim, o neurônio motor começará a utilizar este gene para produzir a proteína SMN que irá garantir o bom funcionamento das células. O grande diferencial deste medicamento é que o efeito poder ser alcançado em uma única dose. Além disso, quanto menor a criança, menor o peso e menor a quantidade de vírus que deverá ser injetada. Por isso, diagnosticar a doença de forma precoce é fundamental!


Como identificar sinais e sintomas da AME?


A sintomatologia pode variar de acordo com o tipo de AME. A AME do tipo 1 se desenvolve até os 6 meses de vida do bebê e possui sintomas iniciais como fraqueza muscular, dificuldade para segurar a cabeça ou para ficar sentado sem apoio. O tipo 2 ocorre de 6 meses a 1 ano e meio e é caracterizada por atraso no desenvolvimento com perda das habilidades motoras, dificuldade para sentar, ficar de pé ou caminhar sozinho. O tipo 3 é mais frequente durante a infância e adolescência e apresenta com sintomas uma dificuldade progressiva para caminhar ou ficar de pé, que pode ir piorando até que seja necessário utilizar cadeira de rodas.


Existe ainda o tipo 4 que é mais frequente em adultos. Nesse caso, os principais sintomas é fraqueza ou fadiga leve a moderada e tremores dos braços e pernas. A perda motora não é muito grave e a deglutição e o sistema respiratório não são muito afetados. Por fim, o tipo 0 é o mais raro e ocorre ainda em estágio fetal (antes do nascimento), ocasionado diversos problemas de desenvolvimento no bebê.

Vale lembrar que os sintomas são progressivos, especialmente no tipo 1, podendo levar a morte da criança por falência respiratória, por exemplo.

A importância da triagem neonatal


A prevenção é sempre a melhor conduta e hoje, existem maneiras eficazes de identificar precocemente a AME. Quando mais cedo a doença for diagnosticada, melhor será a resposta ao tratamento!

O exame de triagem neonatal é uma importante ferramenta para rastreio desta alteração genética. Este exame é feito por meio do teste do pezinho, onde o sangue da criança é coletado para posterior análise. É importante ressaltar que existem diferentes tipos de teste do pezinho que variam de acordo com a quantidade de doenças detectadas (básicos a completos). A AME não é detectada em testes básicos, sendo incluída a análise apenas em triagens mais completas. Por isso, sempre consulte as orientações do médico pediatra para saber qual teste do pezinho melhor se adequa.

Uma vez identificada a alteração, outros exames confirmatórios poderão ser solicitados pelo médico para chegar ao diagnóstico final. O teste do pezinho é indicado para recém-nascidos que já tenham se alimentado e com pelo menos, 48 horas de vida.

O teste pré-natal também pode ser um forte aliado, pois permite identificar a alteração ainda em vida uterina. Nesse caso, são utilizadas modernas tecnologias de investigação genética, como sequenciamento de nova geração (NGS), que permite avaliar a presença da mutação no gene SMN1 no feto. O diagnóstico pré-natal possibilita que intervenções, farmacológicas ou não, sejam realizadas antes do desenvolvimento de sintomas, melhorando o prognóstico.

Em caso de histórico familiar da doença, futuros pais podem também realizar exames de aconselhamento genético de modo a avaliar os riscos de transmitir as mutações gênicas.

Nós, do Laboratório Biocenter, assumimos o compromisso de trazer informações relevantes e atuais para você. Estamos prontos para lhe atender e garantir os melhores resultados em exames laboratoriais.

Referência:


Chilcott, E.M., Muiruri, E.W., Hirst, T.C. et al. (2021). Systematic review and meta-analysis determining the benefits of in vivo genetic therapy in spinal muscular atrophy rodent models. Gene Ther.


Kolb, S. J., Kissel, J. T. (2011). Spinal Muscular Atrophy: A Timely Review. Arch Neurol.


Kolb, S. J., & Kissel, J. T. (2015). Spinal Muscular Atrophy. Neurologic clinics.


Mercuri, E., Pera, M.C., Scoto, M. et al. (2020). Spinal muscular atrophy — insights and challenges in the treatment era. Nat Rev Neurol.


Schorling, D. C., Pechmann, A., & Kirschner, J. (2020). Advances in Treatment of Spinal Muscular Atrophy - New Phenotypes, New Challenges, New Implications for Care. Journal of neuromuscular diseases.


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